terça-feira, 4 de outubro de 2016

Não dormi no dia de hoje, preparei arroz para esperar. Desenhos colados no armário,elogios a algo que eu não sabia existir, uma imitação de gato, a gaveta com roupas de mulher, discussões sobre mundo. Chegou em casa ,longe daqui, e eu me acalmei. O arroz queimou. Deitei na cama e adormeci sentido um abraço de mil laços.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Espaço Negativo

-Sabe, minha mãe conversa com plantas. Como se fossem bebezinhos, incentivando e elogiando para elas crescerem fortes e belas. Ela também conversa com gatos. Como se fossem adolescentes rebeldes, como todos os gatos meio que são, obrigando eles a obedecerem com um misto de amor e ameaça. Um dia que não esqueço foi uma vez que vi meu irmão com o capô do carro aberto e dizendo como um sussurro pra si mesmo"Papai vai comprar um óleo para você". Eu já fui assim, já inclusive dei nomes a bicicletas e videogames mas, deixei isso de lado por que tinha dificuldade de me desfazer de coisas que não funcionam mais. É engraçado (e meio triste, eu acho) o espaço negativo de algo que já foi uma parte sua.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Tente imaginar a vida sem perceber o tempo.
Você não pode.
A natureza não se importa em dividir o tempo. Pássaros não se atrasam, cachorros não tem relógio, gatos não se sentem ansiosos ou vazios ante um aniversário.
Somos obcecados pelo tempo. Anos e meses são dissecados, os dias são cortados  em horas.
Por isso nós temos uma benção que nenhum outro animal tem: O medo de ficar sem tempo.

Livre perversão de um trecho de "The time Keeper".

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Poder.

A algum tempo uma professora durante uma aula perguntou se hoje em dia a sociedade aceita privilégios. Eu disse: Sim, Foro privilegiado, viagens de jatinhos, milhares de auxílios e aposentadoria para a vida inteira por quatro anos de mandato. A reposta que ela queria era: Não. Nossa constituição é avançada e não permite tais coisas. Terminou dizendo que os diferentes são tratados como diferentes.
Uma doutora confunde o direito de ser diferente com privilegio, ou deliberadamente torce a verdade para construir uma narrativa?
A história é um instrumento de poder.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Holocausto Brasileiro

"Apenas o universo e estupidez humana são infinitos"
(Supostamente) Albert Einstein
 
  Einsten estava errado. A crueldade humana é a terceira coisa infinita. Somos capazes de criar e aceitar maquinas de mastigar crianças para preservar o nosso sossego. Este livro fala disso.
   Algumas vezes a sociedade ergue instituições sob um pretexto que é difícil de se opor mas, a verdadeira intenção dos arquitetos e o uso destas instituições é impossível defender ou mesmo entender. O Colônia, umas desta instituições-bestas, foi um campo de concentração travestido de hospital que funcionou na cidade de Barbacena em Minas Gerais e foi responsável pela morte de 60.000 pessoas no seculo passado. Brasileiros condenados sem nenhum julgamento a perda total da dignidade humana e da própria história. O hóspicio foi na verdade um grande deposito para os indesejados da sociedade, pessoas que ousaram contestar as tradições brasileiras de abuso e paternalismo cordial.
    Daniela Arbex leva o leitor para dentro da surcussal do inferno e com uma abordagem humana e respeitosa tenta resgatar a memórias das vitimas. No primeiro capitulo somos apresentados a Marlene Laureano uma enfermeira recém admitida no hospital e que logo no primeiro dia deve que se depara com esta cena: “ Duzentos e oitenta homens, a maioria nu, rastejavam pelo assoalho branco com tozetos pretos em meio a imundície do esgoto aberto que cruzava todo o pavilhão[...] Não encontrava sentido em tudo aquilo, queria gritar, mas a voz desapareceu na garganta.” O livro segue mostrando  a perspectiva de  médicos que travarão uma batalha dantesca por um tratamento humano e de vitimas que lutaram pela sobrevivência. Um combate desigual e que parece fútil em muitos momentos mas, a besta não levou a melhor sempre. Hoje ainda existem duzentos sobreviventes e conhecer suas incríveis histórias de sobrevivência é algo que devemos a eles.
    É um livro curto porem, difícil de terminar pois é quase impossível não parar respirar, a narrativa por vezes é sufocante demais. Nem todas as historias contadas nele tem finais horrorosos mas, todas são trágicas e edificantes. Um livro obrigatório.

Ps: A frase não é de Einsten e sim de Freiderich S. Perls.
 http://quoteinvestigator.com/2010/05/04/universe-einstein/

segunda-feira, 30 de março de 2015

Asmático e Noturno.

 Chego em casa um pouco mais tarde, os ponteiros do relógio estão juntos no topo. Me sinto cansado das escadas e um chiado de rádio velho acompanha minha respiração. Me jogo na cadeira e deixo ela girar pelo escritório,  a mesa embaixo da janela, os porta-retratos vazios, o corredor para o quarto, o corredor para a cozinha, o circulo se completa.

Me sinto meio grogue pela bebida que não devia ter tomado e meio bobo de uma saudade doce, aquele sentimento perigoso que faz esquecer o que é ruim, que cega para o obvio. Sonolência.

Pouco antes de dormir vem a tosse, o chiado aumenta e a minha constante amiga asma vem me visitar. Tento chegar até a gaveta de remédios mas, tudo escurece. A tosse piora e o chiado parece estática. Tem algo rastejando minha garganta, começo a engasgar, o chiado silencia e não respiro mais. Então é assim.

  Chego em casa um pouco mais cedo, os ponteiros do relógio estão juntos na base. Vou até a cozinha pegar água, as escadas me deixaram com sede. Volto até o escritório com vontade de escrever. Os exercícios me deixaram bem disposto. Começo a organizar os papeis em cima da mesa mas, um reflexo na janela me faz virar. Tem um homem sentado embaixo dos porta-retratos da minha esposa. Pálido e com uma expressão de agonia, a pele dele parece prestes a se decompor. Os olhos são fundos e a boca está escancarada.
- Oi? Eu digo assustado e então um barulhos ensurdecedor enche a sala, é como uma  almagáma de respiração pesada e da estática de um radio sem sintonia, uma respiração-estática. O som cessa e eu me recupero do susto. Alguma coisa começa a rasteja para fora da boca do estranho. Eu começo a me esgueirar para a porta mantendo a maior distancia possível entre mim e a coisa que agora está no colo do estranho. É uma especie de inseto, não consigo distinguir bem as formas mas ele tem asas que parecem (que são) feitas de vidro e emite um brilho pálido. As asas trabalham.

   Porta afora eu corro, descendo o mais rápido possível. A espiral de escadas parece úmida e há goteiras. Eu corro mais rápido, voando nas asas do medo. O porteiro do prédio está de costas para mim atrás da porta que dá para a rua, mas antes que eu o alcance um enxame de insetos com asas de vidro toma a porta por fora. Eu paro por um segundo estupefato. A tarja amarela da porta parece vermelha e tem algo escrito nela.”Aero”. O vidro começa a trincar e ceder.

  Correndo escadas acima desesperado, eu bato em varias portas de vizinhos sem resposta alguma. Continuo subindo e as goteiras se transformaram em uma chuva de ferrugem e mofo contaminando a espiral da escada. No andar da minha casa não existem mais portas, não tenho para onde voltar . Volto a subir e  finalmente chego ao fim. A porta vermelha que da para o terraço. “Em caso de S”. Eu me jogo com toda a força contra ela.
  Estou no terraço, não consigo sentir meu braço esquerdo. A noite chegou mas não consigo enxergar as luzes da cidade. O chão está encharcado com uma água negra oleosa que reflete um brilho pálido vindo do céu. Ergo a cabeça e um enxame de insetos com asas de vidro voa ao redor de uma criatura que está parada no ar. A gigantesca e semi-decomposta cabeça de elefante, há  tentáculos e membros humanos misturados onde devia haver o corpo e a tromba. Um tentáculo me agarra pela cintura enquanto uma mão aperta minha cabeça com força trincando minhas lentes. Sou levado até a cabeça do monstro e uma mulher está de pé lá. Ela também parece sem forma mas, ao contrario de tudo que vi até agora, ela me parece o melhor de todos os mundos.

-Boa noite meu bem. Sinto um beijo perto da bochecha. Não sinto mais dor.
Era ela? Nos meus porta-retratos?

- Porque você ainda sonha comigo?
A voz dela é bonita, tem um tom agradável e faz tudo isso parecer bom.
-Eu não entendo, não estou sonhando, eu não entendo….
O barulho de estática me interrompe e é muito mais alto agora. Ela está dizendo algo mas, não consigo entender o que é, não consigo entende-la.

-E nem quer me entender. E nem precisa. Porque não importa mais.O aperto na minha cabeça afrouxa e eu consigo ver um homem em pé ao lado dela. Ele tem uma postura estranha e agressiva e fala como se tivesse certeza absoluta do que diz. É o homem que estava no meu escritório. Arrogante ele continua com sua voz irritante de tom alto

.- Você não consegue entende-la por que isso tudo não te diz mais respeito, você morreu! Quando ele diz isso um som de vidro estilhaçando acompanha a estática e os insetos começam a cair agora sem asas.

-Você gostava e amava mas, você não existe mais. Não se lembra do nosso acordo? Você morre e eu sobrevivo. Sobreviver  é o que eu faço de melhor.Eu escalei de dentro da sua garganta e vou fazer de novo quantas vezes forem necessárias para continuar vivendo.

Enquanto o homem arrogante fala, os insetos, o polvo-humano-elefante, e aquela que é o melhor de todos os mundos definham e somem. Ele vem até mim com um sorriso de canto de boca. O chiado de respiração-estática é insuportável.

    São seis e meia da manhã e acordo com o som da minha respiração. Um copo quebrado está nos meu pés. Meu braço esquerdo está dormente porque dormi apertando alguma coisa. Desembrulho o papel que estava apertando. É uma bula de Aerolon. Passo os olhos por ela: “Em caso de super-dosagem” ,“não usar em conjunção com álcool” e finalmente “terrores noturnos”. Tudo faz sentido agora. Coloco os meus óculos e levo os restos do copo para a cozinha. Tenho que lembrar que de jogar esse porta-retratos fora quando voltar do trabalho.
Aonde foi que trinquei meus óculos?


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Little Pretty Thing 


  Tiny, nosso protagonista foi privado de sua herança. As cuecas do poder infinitos deixadas por seu avô foram roubadas por seu irmão Big. Com essa premissa esquisita, um visual cartunesco adorável e um belo mundo que pode ser modificado ao bel prazer do  jogador esta pequena aventura (o jogo tem entre 3 e 5 horas) me encantou com sua jogabilidade simples e suas musicas deliciosas.
  

  O jogo é como um jardim que tem de ser explorado. Enquanto explorei o mundo fui recompensado pelos ótimos diálogos entre Tiny e seu radio(sim o radio tem vida própria, eu disse que o jogo era esquisito). O que o que diferencia dos outros jogos de exploração é a mecânica de cortar e empurrar. Tiny tem um lazer que pode cortar os pedaços do cenário e um foguete que pode empurrar esses pedaços pelo espaço. Essas ferramentas  podem mudar completamente a paisagem ao seu redor e isso cria situações divertidas em que com um sequencia bem pensada de cortes é possível transformar as rochas do cenário em escadas ou catapultas.
   


  Apesar de curto os jogo vale cada minuto e grande parte por seu visual inspirado em histórias em quadrinho, os sons do jogo são reforçados por onomatopeias e me lembraram um pouco as serie de TV antiga do batman. E há alguns desafios contra Big em que você tem que cortar no ar as rochas que ele joga contra você que são muito divertidos. É um jogo ótimo e valeria apenas pela trilha sonora.